Dom Franco Masserdotti: 20 anos de sua páscoa e um legado que nos inspira
- Secom
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Dom Franco Masserdotti era aquela pessoa que falava ao coração com palavras edificantes e deixava um sinal bonito em quem o escutasse. Carismático, inteligente, simples e com uma capacidade de construir relações impressionante. Tinha um coração grande, sorriso estampado no rosto, espírito juvenil e bom senso de humor. Quem não se lembra de suas anedotas? Também cultivava uma forte espiritualidade missionária que se traduzia em ações solidárias voltadas, sobretudo, aos mais pobres e o levava a abraçar as grandes causas em favor da vida, como bem expressa o seu lema episcopal: ‘Para que todos tenham vida’ (João 10,10).
Conheci Dom Franco Masserdotti quando ele ainda era padre e provincial dos Missionários Combonianos da Província Brasil-Nordeste. Encontrei-o no Congresso Diocesano da Juventude da Diocese de Balsas, em 1993, do qual ele era o assessor. Seu jeito simples e comunicativo, sua capacidade de ler a realidade à luz do Evangelho e o modo como ele motivava a juventude para abraçar a missão do Reino, chamaram a minha atenção e contribuíram para o meu despertar vocacional e missionário. Doze anos mais tarde, em 8 de janeiro de 2005, eu viria a ser ordenado Sacerdote Comboniano pela imposição das mãos de Dom Franco Masserdotti na Catedral do Sagrado Coração, em Balsas.
Dom Franco Masserdotti chegou ao Brasil como padre Missionário Comboniano, em 1972, após estudar Sociologia, em Trento, na Itália. Ele tinha 31 anos de idade quando desembarcou no Rio de Janeiro. Sentiu-se impressionado e abraçado pelo Cristo Redentor, no Corcovado, e ao mesmo tempo acolhido pele povo brasileiro. Foi destinado para trabalhar nas paróquias de Pastos Bons e Nova Iorque, no sul do Maranhão, onde foi acolhido pelo povo sertanejo, a quem amou desde o primeiro encontro e sentiu-se amado por eles. O Brasil naquele momento vivia os tempos duros da ditadura militar (1964-1985). O sofrimento do povo, que vivia numa sociedade muito desigual e injusta, o atingia na alma. Dom Franco procurou entender os mecanismos de dominação e exclusão da sociedade brasileira que, por séculos, oprimiam e excluíam muita gente.
Em 1976, bem antes de ser bispo, Dom Franco Masserdotti tinha sido nomeado vigário geral da prelazia de Balsas, que viria a ser diocese em 1981. Atento aos sinais dos tempos e às intuições e ensinamentos do Concílio Vaticano II (1962-1965) e da Igreja Latinoamericana, ele investiu, já como padre e depois como bispo, na organização e formação das comunidades eclesiais de base, nas pastorais e protagonismo dos leigos e leigas. Nesse período começavam a chegar à região de Balsas novos investidores que compravam muitas terras para o cultivo de arroz, soja e milho. Havia também invasão e grilagem de terras e muito êxodo rural. Surgiam os primeiros conflitos socioambientais na diocese e nesse contexto buscava-se uma prática pastoral que conjugasse fé e vida e levasse em conta os novos desafios socio-pastorais.
Sua vida foi de serviço à missão. Antes de ser nomeado bispo de Balsas, Dom Franco Masserdotti tinha servido o Instituto dos Missionários Combonianos como Assistente Geral (1979-1985), contribuído com a formação de jovens missionários no Escolasticado Internacional Nossa Senhora de Guadalupe, em São Paulo (1986), coordenado a Província Brasil-Nordeste como provincial (1987-1993) e coordenava o Centro de Animação Missionária em Teresina, Piauí (1994-1995). A sua nomeação como bispo coadjutor de Balsas ocorreu em 22 de novembro de 1995 e sua ordenação episcopal no dia 2 de março de 1996, na Catedral de Balsas.
Dom Franco Masserdotti era um homem de fronteiras. Sempre teve muito amor pela missão e pelos mais necessitados. Sua ação ia além das fronteiras de sua diocese e do Brasil. No âmbito da diocese, a linha pastoral adotada por Dom Franco Masserdotti foi de uma Igreja de comunidades de base, ministerial e missionária, comprometida com a vida e empenhada na transformação da sociedade e na construção de um mundo mais justo para todos. Dom Franco elaborou programas formativos, não só formação religiosa, mas também social e política. Foi um animador da juventude e incentivador da Pastoral da Criança, da Comissão Pastoral da Terra, do Centro de Direitos Humanos e do Projeto Vida Nova, do centro de recuperação de dependentes químicos e da Rádio e TV Boa Notícia, para uma comunicação livre e democrática. Ele sonhava com uma Igreja mais missionária, sinodal e solidária e com uma universidade católica na diocese.
A ação missionária de Dom Franco Masserdotti rompia as fronteiras da diocese. Em 1999, ele foi eleito presidente do Conselho Missionário Indigenista (CIMI) e muito fez pela causa indígena. Um episódio que marcou muito a sua vida ocorreu no dia 22 de abril do ano 2000, por ocasião das comemorações dos 500 anos do “descobrimento” do Brasil. O governo federal organizou um grande evento em Porto Seguro, na Bahia. O CIMI e várias comunidades indígenas realizaram uma conferência, em Coroa Vermelha, paralela às comemorações oficiais do governo, onde puderam falar o que significou para elas os 500 anos de colonialismo e opressão. Durante uma marcha pacífica rumo a Porto Seguro, os povos indígenas foram atacados pela polícia com bombas de gás e balas de borracha. Muitos ficaram feridos. Dom Franco foi preso com mais 140 pessoas e sentiu na pele o que significa lutar contra um sistema injusto e opressor. Ele se recusou a ser tratado como bispo e fez-se solidário ficando ao lado do povo mais uma vez oprimido.
Como missionário, Dom Franco Masserdotti não podia deixar de pensar nas Igrejas distantes e mais pobres que se encontravam para além das fronteiras de sua diocese e do Brasil. Em 1998, Dom Franco Masserdotti assumiu a coordenação do Projeto Missionário dos Regionais Nordeste 4 (Piauí) e Nordeste 5 (Maranhão) com a Diocese de Lichinga, em Moçambique, para intercâmbio entre as Igrejas e fortalecimento da caminhada da Igreja de Moçambique. Além disso, Dom Franco participou de muitas outras ações missionárias dentro e fora de sua diocese.
Dom Franco Masserdotti fez sua pascoa há 20 anos. Partiu na tarde do dia 17 de setembro de 2006, vítima de um acidente automobilístico, em Balsas. Seu corpo descansa ao lado de seus antecessores, Dom Diogo Parodi e Dom Rino Carlesi, na Catedral do Sagrado Coração, em Balsas. Dom Franco foi um amigo, mestre, pastor e profeta que caminhou na estrada indicada por São Daniel Comboni: ‘ir além-fronteiras e estar com os mais pobres e abandonados’. Deixou-nos, porém, um grande legado humano e espiritual, o testemunho de um missionário apaixonado pela vida e pela missão e dedicado à causa dos mais pobres. Dom Franco Masserdotti um dia escreveu: “A verdadeira morte ocorre quando colocamos nossa esperança e o sentido de nossa vida na posse, no poder, no prazer desenfreado, quando fechamos nosso coração ao próximo e nos deixamos levar pelo egoísmo”. Dom Franco vive!
São Paulo, setembro de 2026.
Pe. Raimundo Rocha
Provincial dos Missionários Combonianos do Brasil





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